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domingo, 4 de março de 2012

A Parábola do Bom Samaritano

Texto bíblico: Lucas 10.25-37
Talvez essa passagem bíblica seja a mais poderosa utilizada por Jesus para realizar uma cirurgia espiritual nas pessoas religiosas. Nela Jesus Cristo ataca o cerne do sentimento da autojustiça espiritual, do “sentir-se justo”, da justiça própria.

Personagens da vida real
1 Jesus Cristo. Deus filho que veio ao mundo em forma de homem para salvar a humanidade.
2O intérprete da Lei. Era um doutor versado na lei de Deus, pois era capaz de dar boas respostas bíblicas às perguntas de Jesus. Esse estudioso conhecia muito bem as Escrituras Sagradas.
Quem esse personagem representa hoje? Esse doutor da lei representa o teólogo de nossos dias.

Personagens da parábola
1A vítima do assalto. Um viajante que estava indo de Jerusalém para Jericó. Essa estrada era conhecida pelos frequentes assaltos de bandidos a viajantes.
2O sacerdote. Era o encarregado do culto divino, sobretudo do oferecimento dos sacrifícios no tabernáculo e, posteriormente, no templo.
Nos dias atuais, representa o pastor, o pregador, o evangelista, o bispo, o padre, o arcebispo, enfim, qualquer líder religioso que ocupa a direção de uma igreja ou movimento religioso.
3O levita. Membro da tribo de levi que desempenhava o ofício de ajudante dos sacerdotes (servia no culto do templo), encarregando-se dos serviços menores no santuário.
Atualmente são aqueles que se prestam a auxiliar os trabalhos dos líderes religiosos. Exemplos: diáconos, anciãos, presbíteros, professores de catequese e escola dominical, líder de jovens etc.
4O bom samaritano. Pertencente aos habitantes de Samaria, a região que foi o centro do reino de Israel, rival do reino de Judá. Depois da queda de Samaria, os assírios deportaram (expulsaram) boa parte da sua população e, no seu lugar, estabeleceram ali colonos assírios. Assim, se produziu uma mescla (mistura) de etnias, motivo pelo qual os judeus consideravam os samaritanos ritualmente impuros. Por ocasião da volta do exílio, os samaritanos se opuseram a que os judeus reconstruíssem Jerusalém e o templo e levantaram o seu próprio santuário no monte Gerizim. Por outro lado, não reconheciam outra autoridade doutrinal além dos livros da lei (o Pentateuco – os cinco primeiros livros da bíblia), não aceitando as tradições dos judeus como doutrina. Por causa de tudo isso, os judeus não aceitaram como legítimo o culto dos samaritanos, que, para eles, eram praticamente pagãos. Negavam-se, portanto, a ter com os samaritanos qualquer espécie de relacionamento ou trato (Jo 4.9). Os samaritanos eram universalmente desprezados pelos judeus.
Nos dias atuais esse personagem poderia ser representado por um cristão liberal, um crente desligado da igreja ou um homossexual, homicida, adúltero, prostituta, alcoólatra ou qualquer outro indivíduo tido como praticante de “pecados graves”.

O assunto dessa parábola
O “sentir-se justo”. Esse sentimento é a raiz do pecado que nosso Salvador amoroso tem de expor na vida do intérprete da lei, a fim de trazê-lo ao arrependimento.

O que não é o ponto central da parábola
Essa querida história é muitas vezes mal compreendida e aplicada de forma equivocada. Jesus não teve a intenção quando contou essa parábola de dar uma lição sobre quem é o nosso próximo, sobre o bem que devemos fazer aos outros, sobre praticar boas ações. É lógico e evidente que essas lições também podem ser tiradas dessa passagem bíblica. Contudo, a intenção de Jesus não era essa, mas sim mostrar ao doutor da lei a impossibilidade de justificar a si mesmo.
Quando Jesus disse ao doutor da Lei “faze isto e viverás”, em referência ao mandamento de amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, de forma nenhuma quis dizer que a salvação pode ser obtida por observância às obras da Lei. Ao proferir aquelas palavras Jesus simplesmente mostrou ao intérprete da Lei a impossibilidade de salvação por meio de cumprimento de mandamentos, uma vez que jamais o ser humano alcança o patamar de amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.
Para quebrar de vez com o orgulho espiritual do interprete da Lei e mostrar que suas obras não passavam de trapos de imundícia, Jesus põe na parábola um samaritano, a quem os judeus consideravam estrangeiro e praticamente pagão, como exemplo de alguém que cumpriu o mandamento de amar ao próximo.

O assunto principal da parábola do bom samaritano
Jesus se dirige a uma pessoa que conhece muito bem as Escrituras Sagradas: um doutor da Lei, o equivalente ao teólogo da atualidade. Ele era tão bem versado na Lei a ponto de ser capaz de dar boas respostas bíblicas às perguntas de Jesus. Além disso, ele, aparentemente, tinha algum interesse, mesmo que só fosse intelectual, no caminho para a salvação, conforme fica evidenciado por sua pergunta: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (v.25). No entanto, esse homem achava-se justo e era espiritualmente cego. Ele tinha bastante confiança para travar uma disputa acirrada com o Deus encarnado e buscar justificar a si mesmo (v.29).
Sentir-se justo é a chave para essa parábola, e a raiz do pecado que nosso salvador amoroso tem de expor para trazer o ser humano ao arrependimento.
Jesus não contou, como comumente se sugere, uma agradável história da Escola Dominical sobre um bom samaritano que fez uma boa ação para uma alma necessitada caída à beira do caminho. Por que Jesus contaria uma agradável historinha da Escola Dominical para um ser humano astuto teologicamente que buscava justificar a si mesmo?
Jesus tinha de realizar uma cirurgia no coração capaz de salvar a vida desse homem. Ele fez três incisões (cortes). Cada uma delas penetrou mais fundo no tecido do sentir-se justo. Jesus cortou primeiro a pele religiosa do doutor da lei ao apresentá-lo na história como o sacerdote ou levita, alguém com quem ele poderia se identificar prontamente. Sem dúvida, o doutor da lei orgulhava-se do fato de que amava seu próximo como a si mesmo. Entretanto, ele, na realidade, definira “próximo” de uma forma muito limitada, reduzida, e até mesmo nessa definição limitada falhara.
Conforme Levítico 19.18,33-34, o dever de amar o próximo se estendia aos israelitas e aos estrangeiros estabelecidos em Israel. Assim, os judeus tinham a ideia de que o próximo era apenas seu povo ou os estrangeiros que com eles conviviam.
Ele, como muitos de nós, elevava sua justiça, conforme a percebia, acima do que os fatos de sua vida confirmavam.
A primeira incisão, portanto, era para posicionar o doutor da lei na parábola como o sacerdote ou o levita que não se importava com o próximo.
Em sua segunda incisão, Jesus mostrou o real padrão de Deus nas ações do samaritano. Amar o próximo envolve olhos que vejam a necessidade humana, e não a cor da pele, nem a classe social e, tampouco, o país de origem. Tal amor também exige um coração compassivo que lamenta o infortúnio do homem caído à beira da estrada; mãos que se sujam para lavar suas feridas; uma agenda que se torna flexível em resposta à situação do próximo; recursos que são liberados para suprir suas necessidades. Tal amor também estimulou o samaritano a renunciar ao conforto pessoal a fim de providenciar o cuidado apropriado.
Na terceira incisão, o Messias dá o golpe de misericórdia na autojustiça espiritual: Corta profundamente o orgulho do doutor da lei, expondo sua insensatez de desprezar e de julgar os outros. Ao transformar o odiado samaritano no herói da história, Jesus perfura o doutor da lei judeu até o cerne de seu ser. Os samaritanos eram universalmente desprezados pelos judeus por causa de sua ascendência mista, da moralidade que não guardava a Lei e da teologia liberal. Nada poderia ser mais ofensivo para um judeu do que considerar um samaritano melhor que um teólogo judeu que guardava a Lei e que vive bem, e cuja origem ancestral é pura. O doutor da lei deve ter ficado estremecido quando percebeu que Jesus o colocara em posição inferior em relação ao samaritano desprezado.
Talvez, em nossos dias, Jesus teria formulada a história como a “parábola do bom homossexual”. Há pessoas em nosso mundo, como os indivíduos homossexuais, que podem ser mais compassivas que muitas pessoas dentro das igrejas. Alguns homossexuais, por exemplo, doam tudo que têm para ajudar amigos que estão morrendo de Aids. Quantos cristãos conseguem praticar a mesma compaixão deles! Não podemos justificar o estilo de vida homossexual, mas se tentarmos trabalhar da forma que Deus quer temos de reconhecer que muitos descrentes superam as boas ações dos crentes.
O ponto da parábola, portanto, é uma resposta para a pergunta original do doutor da lei sobre a vida eterna: não há nenhuma forma de ganhá-la. Precisamos abrir mão de quaisquer tentativas para justificar a nós mesmos aos olhos de Deus. Em vez disso, devemos receber o dom gratuito da graça de Deus que jamais merecemos.
Imagine bem, se o doutor da Lei que detinha grande conhecimento dos mandamentos divinos e usava todas as forças possíveis para observá-los não era capaz de cumprir a mais básica das ordens de Deus – amar o próximo -, como poderia então alcançar por si mesmo a justiça que o fizesse merecedor da salvação?

Considerações finais
Para que o sentir-se justo não se insinue (se introduza) em nossa alma, cada um de nós precisa aceitar as seguintes verdades:
  1. Nosso desempenho real de justiça é muito pior do que imaginamos.
  2. Os padrões de justiça de Deus são muito mais altos do que conseguimos até mesmo conceber (imaginar), quanto mais alcançar.
  3. As pessoas a quem desprezamos por sua falta de justiça poderão realmente ser mais justas que nós.
Frequentemente esquecemos, de forma conveniente, o que a Bíblia diz a nosso respeito:
“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Isaías 64.6).
“Não há justo, nem um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Romanos 3.10-12).
Esquecemos que somos filhos da ira inclinados a agradar a nós mesmos e que nosso Deus gracioso empilhou presentes inestimáveis sobre nós; éramos lixo espiritual que Deus transformou em troféu do seu amor (Ef. 2.1-10). Justiça sem graça teria nos condenado ao inferno.
Mas a graça e a justiça não se misturam. A graça, por definição, é injusta. Ela estende favor para pessoas que não merecem.
A graça foi preparada para pecadores, não para pessoas justas. Pessoas justas não precisam de favor. Pessoas de boa saúde não precisam de remédio.

A graça de Deus é como a água, que corre para os lugares mais baixos. Se estivermos nos lugares mais baixos, seremos alcançados por ela; se nos elevarmos ao lugar mais alto, ela passa e nos deixa para traz.

Em nome do Senhor Jesus, amém.

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